
Nem sei por que eu escrevo;
Escrevo porque já senti
Um fogo imenso, infinito,
Rodando dentro de mim.
Escrevo porque não posso
Falar do que vai em mim;
Só palavras escritas podem
Levar o meu querubim.
E sigo neste deleite,
Sabendo quem me traduz:
O som de uma palavra
Na boca de quem a conduz.
Não posso fugir, confesso,
Dos sons desta balada;
Prefiro morrer à míngua
Que ser dela enviuvada.
Passei um tempo infeliz,
Longe da valsa dolente;
Meus ais, todos ausentes,
Com olhos de meretriz.
Disseram-me: “vai por aqui”
Ou, talvez, “vá por ali”
O mundo a nada conduz;
Eu pobre, morria em cruz.
Nada de belo olhei,
Nada de sonho sonhei,
Nada aqui eu conquistei,
Nada ali eu revelei.
Tristes dias de clausura,
De boca amarga fiquei;
Minhas palavras trancadas
Nos sonhos que não sonhei.
Agora, voem meus sonhos,
Estendam as asas, meus ais!
Buliçai, minha alegria,
E da pena vos derramai.
Nunca mais volto a cabeça,
Nunca mais mulher de sal,
Hoje sou o sol e a lua
Hoje sou, na pedra, a cal.
